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sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sugestão de Leitura: Platão - Leis, 3 Volumes


Platão, Leis, 3 Volumes.

Tradução: Carlos Humberto Gomes.

Lisboa: Edições 70, 2017-2019 (1º Vol., 1ª Edição, 2004).

ISBN: 1º Vol. 9789724420677; 2º Vol. 9789724411958; 3º Vol. 9789724414843.

Páginas: 1º Vol. 272; 2º Vol. 317; 3º Vol. 266.

Preço: 1º Vol. 17,90€; 2º Vol. 17,90€; 3º Vol. 17,90€.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Por Amor de Deus, Citem, mas Citem Bem

Berruguete, Pedro, Platão, c.1477. Paris: Museu do Louvre.


  A citação em si não tem nada de mal. É até recomendada, pois revela a capacidade de nos relacionarmos intelectualmente. Quando cito  Dante, por exemplo, assimilo o texto, torno-o meu, sem o ser, mas não deixo de ser honesto e faço a devida ressalva e referência. As aspas sem referência não servem a citação, nem o autor sem a obra específica. A citação é uma responsabilidade intelectual, caso contrário é plágio. Vasculhar a Internet e fazer nosso o que é do outro é uma forma de pulhice textual, mesmo se o autor estiver em Vladivostok ou na Patagónia. 
  
  Atribui-se ao texto um carácter mais despersonalizado, como se fosse a hetaira da arte, que qualquer um pode agarrar e levar consigo. Se, por exemplo, um certo Manel das Couves (nome fictício) chegasse ao Louvre, roubasse a Mona Lisa, depois a levasse para o anexo da sua casa em Portugal e nela gravasse as iniciais MC e, por baixo, aka Manel das Couves, todos diriam que o homem estoirou com a panela de pressão. No entanto, se alguém, entre comes e bebes, enquanto vêem entusiasmados um jogo de futebol, ler, como se dizesse algo seu, um excerto de um poema de Herberto Helder ou de um texto de Assis Pacheco, muitos acreditariam nas proezas, bem regadas, da criatividade humana. Ou ainda alguém que, sentado na sua cadeira de rodinhas, com o teclado nas mãos, solta postas de pescada aforísticas, que afinal pertencem a outro ou que provêem de uma tômbola de citações digitais, mas que não deixa de receber muitas carinhas sorridentes pela sua sabedoria.

  A citação sem a designação bibliográfica pode ter duas origens: a ignorância explícita, que não deixa de ser reprovada, pois até na escolinha se aprende que não se devem apresentar trabalhos que se copiam de livros ou de textos da Internet; e a soberba do ego, aquela que pensa que é tudo seu e que não deve nada a ninguém, pois a sua magnificência permite-se a não necessitar do conhecimento dos outros. E há também a preguiça, mas essa é uma forma de ignorância.

  Ficam então algumas hipóteses de como citar - com texto entre aspas ou a itálico:

1 - Hipóteses Simples:

AUTOR, OBRA.
AUTOR, OBRA, PÁGINA.

2 - Hipóteses Completas:

AUTOR, OBRA, PÁGINA. LOCAL: EDITORA, ANO.
AUTOR, OBRA, TRADUÇÃO, PÁGINA. LOCAL: EDITORA, EDIÇÃO, ANO.
AUTOR (ANO), OBRA, EDIÇÃO, TRADUÇÃO, LOCAL, EDITORA, PÁGINA.

E nos textos online basta transcrever o link, como por exemplo:
http://orestopermanecehumano.blogspot.pt/2016/05/por-amor-de-deus-citem-mas-citem-bem.html

  É simples e não dói.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Páginas Perdidas

A História Universal da Destruição dos Livros de Fernando Báez sintetiza essa realidade devastadora que é a destruição de livros. A investigação começa na antiguidade e continua, nesse rasto de páginas perdidas, até à actualidade. 

Pensar nos livros que foram destruídos, devido a causas naturais ou humanas, cria um luto da alma, uma quebra na possibilidade de ler. Se nos focarmos na antiguidade e imaginarmos que não possuímos certos livros, simplesmente porque nos foi furtado o objecto da leitura, então sentimo-nos frustrados, impotentes, incapazes de satisfazer uma curiosidade que não pode ser realizada. Não gostaríamos de poder ler todas as tragédias gregas? Como seria a totalidade da obra de Ésquilo dedicada a Prometeu? Como seriam as obras cujo conhecimento se limita ao título? Ou as obras das quais só nos restam fragmentos? Como seria a totalidade do livro de Heraclito? Ou que nos falta de Platão e de Aristóteles? Não sabemos, só podemos visualizar uma imagem de conhecimento, uma visão universal.

Como seria, para estudioso contemporâneo, poder abraçar todas as obras albergadas na Biblioteca de Alexandria? Todas os comentários das obras clássicas seriam rescritos, rasgados, esquecidos, pois estavam incompletos, errados, baseados num falácia que a destruição fomentou. Encontramos, no livro de Báez, uma panóplia de factos, desde a catástrofe natural à mão intolerante e cega de certos homens. A tentativa de compreender o biblioclasta é sempre vã. É o abismo da ignorância, o olhar que não quer ver que promove este acto ignóbil. O biblioclasta padece de uma bibliofobia, teme o livro, o seu conteúdo, rejeita-o, quer devorá-lo, mas sem o assimilar. O acto de destruir um livro é uma mistura de medo e de ódio. Ao longo da história, os relatos da destruição de livros figuram sempre como uma tentativa de afirmar uma outra verdade, que se quer única, exclusiva, caso contrário como poderíamos olhar para a morte Hipátia e para a contínua eliminação das suas palavras, dos seus escritos. A destruição de livros, quando é promovida pelo gesto humano, serve sempre uma agenda, uma vontade deliberada que diz que é preciso anular aquele texto, apagá-lo da memória.

Nos dias de hoje, é mais difícil a destruição total de um livro, a menos que se trate de um texto antigo, de uma edição limitada ou de um exemplar único. A Internet também veio dificultar este processo, o livro globaliza-se, no entanto, o que actualmente destrói um livro é o esquecimento. Quando um livro sai da estampa, o seu tempo de vida numa livraria é muito curto, pois se não for vendido, a devolução é certa, e, depois de devolvido, o seu destino é um lugar esquecido no armazém do editor, o qual, por necessidade financeira ou dedicação profissional, ainda o vai tentar vender. Primeiro, inclui-o em consignações e espera que a sua lombada, fechada entre livros e pouco visível numa estante perdida, lhe traga uma venda, para que, de seguida, o reponha e espere por outra venda. Depois, tenta outros meios comerciais, espera pelas feiras do livro ou por uma venda no seu sítio na Internet. Por fim, já com o problema de falta de espaço no seu armazém, pois, nos meses ou anos que se seguiram, editou mais algumas dezenas ou centenas de títulos, começa a desejar ver-se livre dele e então vende-o em saldos, a preços tão baixos que espera reduzir a quase nada o stock existente. Se isso não resultar, resta-lhe duas opções: ou o vende a peso para uma empresa que o compre nesse modalidade, ou o destrói, ganhando espaço e vantagens fiscais. É claro que ainda existem editores dedicados que os conservam nos seus armazéns, porém, o fim é o mesmo a destruição pelo esquecimento. Este é talvez o único facto que falta incluir no livro de Báez, porque de resto os melhores exemplos estão lá.

A leitura do livro História Universal da Destruição dos Livros pode aumentar a nossa consciência sobre aquilo que perdemos, sobre as páginas que não lemos. Leia-se.




Fernando Báez

História Universal da Destruição dos Livros

Tradução Maria da Luz Veloso

Texto Editora

2009


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Experiência da Viagem

A experiência da viagem conduz sempre a um processo de transformação. O eu torna-se num outro, renova-se na novidade que é apreendida. No entanto, a viagem necessita de uma disponibilidade, de uma abertura ao novo, ao estranho, ao desconhecido. Em certa medida, a viagem é uma experiência iniciática. O indivíduo ao viajar entra num outro mundo, numa realidade que não é a sua.

Michel Onfray, na Teoria da Viagem, reflecte sobre o desejo de viajar, sobre o impulso nómada que pode habitar em nós. O filósofo francês diz que "viajar exige uma abertura passiva e generosa às emoções despertadas por um lugar que deve ser capturado em toda a sua brutalidade primitiva, como uma oferenda mística" (62).  É essa disponibilidade para sentir um lugar estrangeiro que nos transforma. 

Onfray refere também que "a viagem deriva mais do convite socrático a conhecer-se a si próprio do que da escalada do Gólgota" (83). O conhecimento de si próprio é adquirido pela apreensão de uma realidade espacial inaugural, em bruto, desconhecida. É uma experiência mística que exige a contemplação, porque, depois de viver essa alteridade de espaço, o sujeito retorna à origem, transfigurado, conhecedor de uma língua estrangeira. A palavra é outra, pois a sua linguagem cresceu, vivificou nesse acto de se abrir ao mundo.

"Viajar conduz inexoravelmente à subjectividade" (88). O sujeito conhece-se naquilo que escolhe para si, na realidade que acolhe como sua e que transforma face ao seu modo de pensar e sentir. Ao longo da história, a viagem foi sempre encarada como um processo de crescimento, veja-se o caso dos filósofos gregos que viajavam e assimilavam nas suas teorias esse conhecimento estrangeiro. Pitágoras e Platão foram disso exemplo. Os egípcios, os persas ou os caldeus enriqueceram a filosofia destes homens. Também na literatura, a viagem implica essa disponibilidade para conhecer-se a si próprio. Gilgamesh, a Comédia de Dante ou a Viagem a Itália de Goethe expressam essa realidade transformadora que é a viagem. Os textos do Graal também indicam essa dinâmica. A Morte de Artur de Thomas Malory, Perceval, o Conto do Graal de Chrétien de Troyes e Parcifal de Wolfram von Eschenbach resumem a viagem que tem como finalidade um destino transformador que é, neste caso específico, uma imagem de redenção. O Graal transforma e liberta aquele que o procura e aquele que o encontra.

A Teoria da Viagem de Michel Onfray é um excelente resumo do conceito de viagem. Leia-se.



Michel Onfray

Teoria da Viagem - Uma Poética da Geografia

Tradução Sandra Silva

Quetzal

2009




quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Traduzir os Clássicos: Um Caso de Esperança

Em Portugal, as traduções dos clássicos gregos e latinos são lentas e tardam em sair do prelo. Este país, apesar de estar na ponta da Europa, não deixa de partilhar a herança europeia, fortemente enraizada na cultura clássica. 

No que diz respeito à tradição filosófica, o pensamento europeu é dominado pela influência de Platão e de Aristóteles, contudo, em Portugal, não existe, ainda, uma edição completa, bilíngue, semelhante à de outros países, destes dois autores. Em Espanha, temos a da Editorial Gredos, em França, a da Les Belles Lettres e,  no Reino Unido, a da Loeb, só para dar alguns exemplos. Se tivermos em consideração estas edições, vemos que não possuímos, em Portugal, nenhuma publicação equivalente. 

Durante décadas, criamos um modelo redutor de editar "versões", baseadas em segundas traduções, ou seja, traduzíamos do francês e do inglês, ignorando o texto original, o que frequentemente dava à estampa textos cheios de erros linguísticos e filosóficos. Esta realidade fundamentava-se em dois factores: por um lado, vivemos muito tempo em ditadura, na qual a cultura aproximava-se mais de um gueto do que de uma esperança de universalidade, logo, a exigência era colocada em níveis muito baixos, o simples facto de existir uma edição já saciava a fome de conhecimento que não se revia no regime político; por outro lado, em termos académicos, o ensino da língua grega e da língua latina tem revelado uma expressão muito tímida e se as universidades e, sobretudo, a política educativa negligenciarem a anterior Filologia Clássica e a actual Línguas e Literaturas Clássicas, então o número de tradutores profissionais torna-se inferior às necessidades, o que naturalmente faz com que os leitores fiquem privados dos textos que deveriam ler.

O caso de Platão, apesar de tudo, é melhor do que o de Aristóteles. Do fundador da Academia, temos traduzidos a maior dos diálogos, não numa edição bilingue, mas com traduções de grande qualidade. A única grande lacuna é as Leis. Só saiu o primeiro de três volumes, em Novembro de 2004, pelas Edições 70. Continuamos à espera! Já a edição de Aristóteles não goza da mesma sorte. A Imprensa Nacional iniciou um projecto louvável de publicar as suas obras completas, no entanto, as edições tardam em aparecer e tem um preço de venda ao público que não é sustentável face ao poder de compra dos seus leitores. Por exemplo, um volume da edição da Loeb custa cerca de metade do preço de um da Imprensa Nacional. Porém, o caso mais flagrante da tradução das obras de Aristóteles é o da Metafísica. Os portugueses ainda não podem ler esta obra na sua língua. Tiveram, em tempo, a hipótese sentir o aroma dos primeiros livros numa edição da extinta Atlântida, numa colecção dirigida por Joaquim de Carvalho. No Brasil, as Edições Loyola pegaram na excelente edição italiana de Giovanni Reale e deram aos seus leitores a Metafísica em três volumes: introdução geral; texto original e tradução; e comentários. 

Deixo aqui mais dois exemplos que também tardam em aparecer: o De Rerum Natura de Lucrécio e as Enéadas de Plotino. Continuamos à espera destas edições! Estes exemplos, como tantos outros, servem para ilustrar o nosso atraso cultural. O que pode esperar um país sem referências?  

É, de facto, peculiar que um país que luta pela inclusão no espaço europeu - leia-se União Europeia -, tenha uma relação de desleixo com a sua herança. Quando é que os leitores portugueses poderão ler, na sua língua, estes textos fundamentais? Esta a pergunta que fica.