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sábado, 27 de agosto de 2022

Sugestão de Leitura: Goethe - A Metamorfose das Plantas


J. W. von Goethe, A Metamorfose das Plantas.

Tradução, posfácio, notas e apêndices de Maria Filomena Molder.

Lisboa: Edições Saguão, 2022.

ISBN: 9789895329144

Páginas: 164

Preço: 14,00€

sábado, 11 de dezembro de 2021

Sugestão de Leitura: Ernst Jünger - O Passo da Floresta


Jünger, Ernst, O Passo da Floresta.

Tradução e Prefácio de Maria Filomena Molder.

Lisboa: BCF Editores, 2021.

ISBN: 978-989-53398-0-8

Páginas: 144

Preço: 14€
 

terça-feira, 13 de julho de 2021

sexta-feira, 2 de março de 2018

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O Ridículo que pertence à Terra

Poussin, Nicolas, The Nurture of Bacchus, 1630-35. Paris: Museu do Louvre.
Fonte: http://www.wga.hu/index1.html


    Hermann Broch deixou-nos a noção transformadora do "absoluto que pertence à terra", indicando o modelo de passagem que permite ver na terra o absoluto que pertenceria somente ao céu. Segundo Filomena Molder, este absoluto terreste "não é nem abismo, nem transformação em infinito, mas a intensificação da relação entre os dois, o seu sustentáculo". Ora é nesta ponte entre abismo e infinito que se pode introduzir o riso, o cómico como categoria crítica da realidade. O conhecimento da morte e valor efémero da vida conferem à existência humana uma certa dimensão de ridículo.

   A tese que vigorou na Idade Média era de que o riso era próprio dos animais e era uma coisa do Diabo. Essa visão está bem presente na personagem de Umberto Eco Venerável Jorge, a qual argumenta com o Irmão Guilherme a existência de um segundo livro da Poética de Aristóteles, dedicado à Comédia. Em O Nome da Rosa, o texto existe, já nós temos claros indícios da existência dessa obra, hoje perdida.

 O suposto gargalhar de macacos e hienas não passa de uma mera vocalização, pois não é um riso que interpreta a realidade e lhe confere uma natureza crítica. Bergson, no seu ensaio sobre o riso, diz que "não há comicidade fora do é propriamente humano". E é a partir do Renascimento que se reintroduz as categorias da comédia e do riso como expressões críticas da realidade. É a partir deste momento, e na continuidade de Aristófanes, que foram produzidas as melhores obras de comédia e de sátira.

  Mais tarde, Rabelais, no Pantagruel, vem dizer: "Mieux est de ris que de larmes escripre/ Pour ce que rire est le propre de l'homme". Mais uma vez, a noção de que o riso é próprio do humano apela para a reinterpretação do real. O grotesco é utilizado na crítica à sociedade. O gigante Pantagruel, quando provocado pela multidão de Paris, verte águas sobre ela afogando uma parte, os sobreviventes riem até perderem o fôlego. A origem do nome da cidade surge, nesta sátira, de "Par Ris". A tragédia, pela mão do grotesco, torna-se risível.

  Na esteira de Rabelais, Eça de Queiroz afirma, nas Notas Contemporâneas, que "o Riso é a mais antiga, ainda a mais terrível forma de crítica". Quando lemos as comédias de Aristófanes compreendemos a importância do riso como crítica, sobretudo social, como por exemplo nas peças Lisístrata ou As Mulheres na Assembleia. O ser humano quando ri tem sempre um referente para o seu riso, seja de si, do outro ou da comunidade.

  No entanto, tal como diz Eça, "penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu. E entristeceu - por causa da sua imensa civilização". As aparências e a complexidade dos artifícios sociais enfraqueceram o riso como crítica. A crítica social através do riso repousa apenas naqueles que vivem do humor e, todavia, os remetentes da sua mensagem não a interiorizam, preferem sorrir como se fosse uma necessidade protocolar, determinada pelo o que é comummente aceite. O rir dos outros mantém-se quase inalterado, pois apela a uma certa maldade intrínseca de diminuir o próximo. Porém, se este fosse equilibrado com a nobre acção de rirmos de nós mesmos, seria atenuada a perfídia do julgamento fácil, mas é aqui que reside o problema. Tornámo-nos tão cinzentos e tristes que temos dificuldade em rir de nós mesmos. 

  Montaigne, no ensaio Da Vaidade, diz que "a corrupção da nossa época grassa devido ao contributo pessoal de cada um de nós: uns concorrem para ela com a traição, outros, com a injustiça, com a irreligião, a tirania, a ganância ou a crueldade, à proporção do poder que têm; os mais fracos, entre os quais me conto, contribuem com a tolice, a vaidade ou a ociosidade". O ser humano insuflou-se tanto de ego e vaidade que é incapaz de ver que o produz é mais corrupção do que esplendor. A capacidade de rirmos de nós mesmos é um ensimesmamento terapêutico. E só quem se tem em grande conta é que é incapaz de rir de si. Somos uma migalha ínfima no universo, logo não adianta as grandezas do eu. 

  O gordo, o pobre, o mal vestido, o que tem um carro velho ou uma casa modesta são motivo de riso, mais comum do que a nossa insignificância ou a nossa ignorância. Pensamos que o que somos e fazemos é magnânimo e magnífico, mas a ironia está no ridículo que somos quando assim nos apresentamos. Existe sempre um outro lado: o magro extremo que da boa comida abdica também é ridículo; o rico que na opulência se espelha é ridículo; o que demasiado aprumado se veste é ridículo, pois é incapaz de descontrair; o carro faustoso é ridículo e a casa excessivamente rica é ridículo e pirosa. 

  A didáctica do riso garante o nosso lugar no mundo e fixa a nossa dimensão humana. Temos de seguir a máxima de Rabelais: "Riez! Riez!". O sábio e o génio riem de si, porque conhecem os seus limites, já o ignorante adorna a sua vaidade com lustrosas patentes e medalha o ego com a riqueza dos seus feitos ilusórios. Somos cinzas e pó que temem o abismo e fitam o infinito. A nossa existência é este ridículo que pertence  à terra.


Bibliografia:
Bergson, Henri, O Riso. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
Eco, Humberto, O Nome da Rosa. Lisboa: Difel, s/d.
Montaigne, Ensaios - Antologia. Lisboa: Relógio D'Água, 1998.
Molder, Maria Filomena, O Absoluto que pertence à Terra. S/l: Vendaval, 2005.
Queiroz, Eça de, Notas Contemporâneas. Lisboa: Livros do Brasil, 2000.
Rabelais, François, Gargantua et Pantagruel. Paris: Arlea, 2010.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A Arte entre a Vida e a Morte: Para uma Leitura de Broch

A Morte de Virgílio de Hermann Broch é umas das maiores obras da literatura universal. A personagem principal, o poeta latino Virgílio, autor da Eneida, não é apresentado como na Comédia de Dante, um guia, uma mestre, aquele que aponta o caminho, nesta obra, olhamos, pela força lírica das palavras, para um Virgílio moribundo, com a morte invadindo-lhe a carne. O poeta tem o seu coração inquieto, duvida do sentido e do valor da vida, valor este que, no seu caso, foi alcançado pela arte, enquanto expressão da vida. Porém, quando a morte se aproxima, a importância da arte é posta causa, perde, aparentemente, o seu sentido, daí que Virgílio queira destruir a sua grande obra. O texto expressa esse desencanto nas palavras: "para se reconhecer a vida, não é preciso a poesia" (II,101), "o que eu escrevi tem de ser consumido pelo fogo da realidade" (II, 22). O conhecimento da vida depende do conhecimento da morte.

Maria Filomena Molder, em O Absoluto que Pertence à Terra, livro dedicado a Broch, diz que "o conhecimento da morte revela-se na transformação do tempo em espaço" (73). Ora é precisamente nesta transformação do tempo em espaço que podemos encontrar, através do conhecimento da morte, esse absoluto que pertence à terra. A relação de conhecimento - ou de reconhecimento - entre a vida e a morte, alcançada pelo valor da vida, o qual indica também o sentido da arte, permite que alcancemos uma forma de redenção. O Anjo da Terra garante, neste processo de transformação, um gesto de dádiva, um toque que purifica.

A Morte de Virgílio representará sempre uma leitura inacabada, pois em cada página, cada frase, cada palavra podemos encontrar um olhar renovado. As grandes obras concedem-nos as bênçãos da novidade e do espanto.

Hermann Broch

A Morte de Virgílio

1º Volume

Trad. Maria Adélia Silva Melo

Relógio D´Água

S/d




Hermann Broch


A Morte de Virgílio

2º Volume

Trad. Maria Adélia Silva Melo

Relógio D´Água

S/d






Maria Filomena Molder

O Absoluto que Pertence à Terra

Edições Vendaval

2005