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sábado, 12 de outubro de 2013

Da Cultura à Ignorância

A cultura tornou-se uma arma de propaganda, pessoal e colectiva. Deixou de ser importante cultivá-la, possuí-la, o que importante é parecer ter uma imagem culta, mostrar interesse, preocupação. Os governos reservam à cultura uma parte miserável do seu orçamento, mas dizem sempre que lamentam não poder fazer mais. Não é possível. As contas públicas. A dívida. Outras necessidades. Existe sempre um razão. E, assim, perdemos o progresso, somos impedidos de evoluir. Ficamos com uma educação sem cultura, com uma classe política inculta e com uma sociedade alienada face ao valor da sabedoria. 

Os únicos que podiam contrariar essa tendência estão no limiar de um processo deliberado de extinção. A elite cultural, os criadores, os artistas, os pensadores são forçados a atravessar o percurso que leva ao exílio, simplesmente, porque são incómodos. O seu ethos contraria um modo de viver em que tudo está pré-estabelecido. Não convém que existam pessoas que coloquem em causa as convenções, as normas, as aparências e os vícios. Não seria conveniente que estas pessoas desmascarassem a ignorância dos falsos arautos. Essas vozes simoníacas que rompem o juízo de um povo desinteressado. 

Vivemos, actualmente, num novo regime totalitário, um à escala mundial, e, neste regime, o grande ditador é a Ignorância.     

terça-feira, 12 de março de 2013

Kierkegaard: Do Dinamarquês para o Português

O Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, em parceria com editora Relógio D'Água, tem desenvolvido um projecto de tradução e de edição da obra de Kierkegaard. Até Novembro de 2009, este projecto ficou restrito ao Centro de Filosofia, porém, a partir dessa data, o público em geral pode acender, com relativa facilidade, a obra deste filósofo. A Relógio D'Água deu à estampa, no final do mesmo ano, duas obras: Temor e Tremor (Tradução de Elisabete M. de Sousa) e A Repetição (Tradução de José Miranda Justo).

Neste projecto, é de destacar a importância da tradução. Os textos de Kierkegaard foram traduzidos do original, em dinamarquês. Esta tarefa árdua, que implicou a aprendizagem da língua, possibilitou ao leitor português ler uma tradução que não passa por uma língua intermédia, habitualmente o inglês. No entanto, este esforço de tradução já tinha sido iniciado com duas outras obras: In Vino Veritas (Tradução de José Miranda Justo, Antígona, 2005) e Adquirir a sua Alma na Paciência (Tradução de Nuno Ferro e de Mário Jorge de Carvalho, Assírio & Alvim, 2007). 

Este tipo de tradução é fundamental para a cultura portuguesa, pois se queremos entrar numa realidade editorial e académica, que noutros países tem décadas de avanço, temos de superar os esforços que até aqui têm sido desenvolvidos. É preciso fazer mais. Não se justifica que só no início do século XXI possamos ler estas obras a partir do original. Kierkegaard é uma presença incontestável na história da filosofia contemporânea e, a par de Nietzsche, os seus textos revelam, para além do pensamento filosófico, uma beleza literária digna de uma leitura dedicada, atenta e surpreendente. 

Em Temor e Tremor, Kierkegaard parte do desmame da criança e da Aquedah, do sacrifício de Isaac, para uma teoria do amor, em todas as suas variantes. Johannes de silentio (pseudónimo do autor) expressa, enquanto poeta, um elogia de Abraão, diz que "aquele que se amou a si próprio tornou-se grande pelos seus próprios meios, e aquele que amou outros homens tornou-se grande pela sua dedicação, mas aquele que amou a Deus tornou-se maior que todos" (113, 66) e sintetiza que "o que se retira da história de Abraão é a angústia" (124, 81). De seguida, Kierkegaard, depois da "Expectoração preliminar", desenvolve a análise deste episódio bíblico, recorrendo a uma erudição, fértil em referências, que provoca no leitor um mistura de entusiasmo e assombro. Os três problemas (Haverá uma suspensão teleológica do ético?, Haverá um dever absoluto para com Deus? e Terá sido eticamente defensável da parte de Abraão ter mantido silêncio sobre o seu propósito perante Sara, Eliesar e Isaac?) terminam com um epílogo que fecha com uma referência a Heraclito, a mesma que nos conduz, inevitavelmente, para outro texto de Kierkegaard, A Repetição.

Em A Repetição, Constantin Constantius (pseudónimo do autor) desenvolve essa máxima, atribuída a Heraclito, que defende o movimento perpétuo, ou, em última análise, a anulação do próprio movimento. O conceito de repetição é a chave dessa análise de Kierkegaard que diz que "a vida é toda ela uma repetição" (9, 32), mostrando que a repetição e a recordação indicam o mesmo movimento, embora em direcções opostas. Segundo o autor, "aquele que apenas quer ter esperança é cobarde; aquele que apenas quer recordar é voluptuoso; mas aquele que quer a repetição é um homem, e quanto mais energicamente for capaz de a tornar clara para si próprio, tanto maior será a sua profundidade como criatura humana" (10, 32), daí que diga que "a repetição é e permanecerá transcendência" (57, 91). A análise que Kierkegaard faz deste conceito merece ser lida e relida e não apenas pelo leitor familiarizado com os temas filosóficos, visto que é uma realidade que se aplica a própria vida, independentemente da teorização que sobre ela se faça. 

A edição da obra de Kierkegaard não ficou por estas duas obras. Em 2012, saiu as Migalhas Filosóficas (Tradução de José Miranda Justo) e, em 2013, saiu a primeira parte de Ou-Ou - Um Fragmento de Vida (Tradução de Elisabete M. de Sousa). No primeiro texto, Climacus (pseudónimo do autor) começa com uma análise do modelo socrático de maiêutica, com relação entre mestre e discípulo, para, na segunda parte, desenvolver a sua teoria de amor de Deus pelo ser humano, a qual conduz, na terceira parte, para o conceito de paradoxo e para impossibilidade da ideia de verdade socrática e para anulação da sua metodologia. Em última análise, conclui que a verdade não reside no interior de cada um, mas sim num Outro que totaliza a verdade e a eternidade. 

 No entanto, é na obra Ou-Ou que devemos focar a nossa atenção, visto que a mesma não conhecia uma edição integral na nossa língua, apenas o capítulo "Diapsalmata" tem uma edição portuguesa, também ela do dinamarquês, traduzida por Nuno Ferro e por Mário Jorge de Carvalho, pela Assírio & Alvim, em 2011. É uma obra heterogénea, atribuída ao autor A, e com uma enorme riqueza literária. Neste texto, encontramos reunidas a maioria das categorias desenvolvidas pelo filósofo. Seria impossível sintetizar aqui toda a abrangência desta obra, daí que o melhor que o leitor pode fazer é lê-la, surpreender-se-á. Leia-se.




Kierkegaard

Temor e Tremor

Tradução Elisabete M. de Sousa

Relógio D'Água

2009


     

  

Kierkegaard

A Repetição

Tradução José Miranda Justo

Relógio D'Água

2009






Kierkegaard

Migalhas Filosóficas

Tradução José Miranda Justo

Relógio D'Água

2012






Kierkegaard

Ou-Ou - Um Fragmento de Vida (Primeira Parte)

Tradução Elisabete M. de Sousa

Relógio D'Água

2013

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Lembrar Llansol no Texto Lido

Maria Gabriela Llansol faleceu a 3 de Março de 2008 e desde então foram apenas publicados dois livros: Uma Data em Cada Mão - Livro de Horas I (2009) e Um Arco Singular - Livro de Horas II (2010). Porém, segundo o Espaço Llansol, o seu espólio é constituído por 25.452 páginas digitalizadas: 

Cadernos 1º Núcleo - 17.541 páginas; 
Cadernos 2º Núcleo - 5.347 páginas;
Agendas - 2.280 páginas;
Blocos de Notas: 284 páginas. 

O trabalho dos colaboradores do Espaço Llansol é louvável, com uma determinação legente e uma amizade altruísta. No entanto, a edição não corresponde à dedicação que estas pessoas tem oferecido ao texto llansoliano. 

Em Portugal, os espólios demoram demasiado tempo a passar a texto publicado. Por exemplo, Jerónimo Pizarro, na Revista Ler de Setembro de 2012, diz que cerca de 30.000 páginas do espólio de Fernando Pessoa continua por editar. De facto, parece peculiar que um escritor como Pessoa, que faleceu a 30 de Novembro de 1935, continue a ter textos por editar.   

O texto precisa do leitor e o leitor do texto. É essa misteriosa afinidade que preserva uma teia de vida entre um e outro, daí a importância de publicar o espólio, pois o leitor deve ter um acesso completo a obra de um autor, só assim poderá compreender e amar aquelas palavras que libertam, que iniciam um caminho de descoberta, de novidade e de espanto. É essa repetição do entusiasmo da primeira leitura, sempre renovada no texto lido, que confere ao leitor/legente esse assombro inaugural. Logo, o texto por editar e o livro esgotado assumem uma marca de impossibilidade, negando ao cantor de leitura a palavra que pede o seu olhar. 

Repensar a publicação dos espólios é uma necessidade cultural e humana e o texto de Llansol - e de Pessoa - precisa de ser lido para ser lembrado. 

  

Maria Gabriela Llansol

Uma Data em Cada Mão
Livros de Horas I

Assírio & Alvim

2009






Maria Gabriela Llansol

Um Arco Singular
Livro de Horas II

Assírio & Alvim

2010





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A Cultura também se Atrasa

O Expresso noticiou que a Sociedade de Língua Portuguesa vendeu o seu acervo bibliográfico, cerca de trinta mil títulos, a um livreiro de Lisboa, a justificação, segundo o seu vice-presidente, prende-se com a situação financeira da instituição, com dívidas à Segurança Social e com vencimentos em atraso. Ler aqui.

A cultura está a pagar uma factura muito alta pela actual situação do país. Fala-se, com frequência e com razão, no cinema, no teatro, nas artes plásticas, mas, por vezes, esquece-se a situação do livro em Portugal. As editoras, umas fecham, outras reabrem, umas prosperam sem que se saiba, pois não é conveniente que se saiba, e outras decaem, lançam-se no abismo da insolvência. No entanto, nesta realidade efémera e esquecida, existem elementos que nunca são lembrados: os livros e os trabalhadores. Quando uma editora ou instituição ligado ao livro se afunda, temos de nos perguntar quem é que sai a perder. A resposta é sempre a mesma: o livros e o seus leitores e os funcionários que nela trabalhavam. 

Os livros, outrora editados, caem no esquecimento, perdem-se num alfarrabista ou na estante de uma biblioteca, longe dos leitores. E os trabalhadores, esses juntam-se ao número daqueles que estão num limbo entre o trabalho e o desemprego. Saem de casa, entram ao serviço, cumprem as horas de serviços, esforçam-se por serem profissionais, mas, no final do mês, não recebem. O incumprimento do dever da retribuição é um flagelo tão grande como o desemprego, visto que a incerteza domina em ambas as realidades. 

A cultura está a ficar atrasada, distante de um mundo que precisa de si e de um tempo exige a sua presença.