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terça-feira, 16 de julho de 2013

Entre a Citação e o Fragmento (5)

CITAÇÃO

O dinheiro não só não tem coração, como não tem honra nem memória. O dinheiro é automàticamente respeitável desde que se conserve algum tempo.

Steinbeck, John, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 70. Tradução João Belchior Viegas. Lisboa: Livros do Brasil, 5ª Edição, 2002.

FRAGMENTO

O século XX foi determinante para a criação e preservação dos regimes democráticos. A sociedade, aparentemente, evoluiu. O desenvolvimento tecnológico, o aumento da esperança de vida e as melhorias nas condições de vida - saúde, higiene, alimentação, educação e trabalho - criaram à esperança vã que a pobreza ia diminuir, tornar-se residual. No entanto, a realidade é outra, o que é prova de que o dinheiro não tem coração, honra ou memória. Os Estados firmaram a Democracia, mas tornaram-se reféns do dinheiro. As entidades virtuais - mercados e agências de rating - minaram a autoridade que, supostamente, pertencia aos cidadãos e, com essa privação de autonomia, a pobreza cresceu. O caso português ilustra esse embuste. Veja-se o caso BPN. Em nome da sustentabilidade financeira e bancária, os contribuintes caíram num poço sem fundo. O Governo decidiu vender o banco nacionalizado a preço de saldo, 40 milhões de euros, e agora ainda tem de participar nas perdas, prejuízos, dessa aquisição pelo BIC, mais de 100 milhões. De facto, o dinheiro não tem coração, pois é oferecido em esquemas que em nada salvam aqueles cidadãos que se viram afundados na pobreza. Os direitos humanos que pareciam um pilar da sociedade moderna estão ameaçados por este tipo de acções. O valor do humano é destruído em nome de algo que não se vê e que não tem qualquer relação com a vida das pessoas. O respeito pelo dinheiro só existe para quem o tem e para quem o pode preservar. Os outros, a maioria, vivem assombrados por esse rosto nefasto que é a pobreza.     

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Quando o Pagamento da Dívida Pública se transforma em Simonia

Dante coloca os simoníacos no Oitavo Círculo do Inferno. A sua condenação é serem enterrados, de cabeça para baixo, num fosso e, enquanto sufocam, as suas pernas esperneiam e os seus pés são queimados. Malebolge, o Oitavo Círculo, é constituído por dez fossos, ou bolgias. O poeta começa, no Canto XIX, por descrever as dores dos fraudulentos, daqueles que vendem ilusões, promessas de uma salvação futura. O Papa Nicolau III é punido por estes crimes. O sucessor de Pedro diz: "Sob a minha cabeça vais achar / os que me precederam simonando, / e as fissuras da terra vão tapar" (Inferno, XIX, 73-5).

A simonia era uma venda de favores divinos ou bênçãos espirituais e materiais a troco de dinheiro. Um perdão dos pecados podia ser comprado. Tudo se vendia pela salvação da alma e, muitas vezes, pela do próprio corpo. A Igreja evoluiu e hoje condena este crime e pune-o com a excomunhão. No entanto, existem ainda vários sectores da nossa sociedade que continuam a praticar esta "transacção comercial", ou seja, quem se quiser salvar tem de pagar um valor proporcional ao bem alcançado - ou supostamente alcançado.

"Por ouro e prata adulterais" (4) diz o poeta. Os fraudulentos corrompem o humano, furtam a sua dignidade, em nome do ouro e da prata. A simonia de hoje é laica, vende um visão salvífica de um amanhã melhor, uma promessa ilusória de que os sacrifícios vergastados na pele têm uma finalidade. Porém, o pobre que sente o vazio no bolso, mas a imensidão na consciência, começa a perceber que a dor que o fustiga é sem sentido, é incoerente, incompreensível e injusta. Os governos de hoje, os países sob resgate, vendem a necessidade de pagar a dívida pública como se fosse uma indulgência, um perdão pelos pecados nacionais. No entanto, diante do pregador simoníaco, pensa o pobre, que sempre foi pobre, que pecado posso ter cometido quando nunca abandonei um país de pobreza. Se alguém pecou, se alguém cresceu na sua soberba, esse alguém não foi o pobre. Este limita-se a contribuir, contra a sua vontade, com o pouco que tem. Vendem-lhe ilusões, promessas, imagens de um amanhã colorido, todavia, esse tempo não se vê, nem se vislumbra. É o tempo do nada e do nunca. Mas o pregador não desiste, bem pelo contrário, insiste nessa necessidade de perdão.

A simonia é o discurso oficial sobre a austeridade e sobre o pagamento da dívida pública. Leia-se Dante e conserve-se a esperança na punição que lhes está destinada.



Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução Vasco Graça Moura

Quetzal

2011