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sábado, 3 de setembro de 2016

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Benjamin e o Anjo da História

Paul Klee, Angelus Novus, 1920. Jerusalém: Museu de Israel.

Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.

Benjamin, Walter, "Sobre o Conceito de História", O Anjo da História, Edição e Tradução de João Barrento, pp. 13-4. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.


Es gibt ein Bild von Klee, das Angelus Novus heißt. Ein Engel ist darauf dargestellt, der aussieht, als wäre er im Begriff, sich von etwas zu entfernen, worauf er starrt. Seine Augen sind aufgerissen, sein Mund steht offen und seine Flügel sind ausgespannt. Der Engel der Geschichte muß so aussehen. Er hat das Antlitz der Vergangenheit zugewendet. Wo eine Kette von Begebenheiten vor uns erscheint, da sieht er eine einzige Katastrophe, die unablässig Trümmer auf Trümmer häuft und sie ihm vor die Füße schleudert. Er möchte wohl verweilen, die Toten wecken und das Zerschlagene zusammenfügen. Aber ein Sturm weht vom Paradiese her, der sich in seinen Flügeln verfangen hat und so stark ist, daß der Engel sie nicht mehr schließen kann. Dieser Sturm treibt ihn unaufhaltsam in die Zukunft, der er den Rücken kehrt, während der Trümmerhaufen vor ihm zum Himmel wächst. Das, was wir den Fortschritt nennen, ist dieser Sturm.

Benjamin, Walter, "Über den Begriff der Geschichte", Gesammelte Schriften, I, 2, pp. 697-8. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1974 (1991).

sábado, 8 de agosto de 2015

sexta-feira, 1 de março de 2013

Um Fragmento é Tudo o que Resta

O livro de João Barrento, O Género Intranquilo - Anatomia do Ensaio e do Fragmento, descreve o que será  a realidade estética e formal da literatura e da filosofia para o século XXI, pois, ao traçar a especificidade destes géneros literários, projecta a necessidade textual que é própria da sua natureza. O romance, tal como o conhecemos no século XIX ou em meados do século XX, bem como o tratado filosófico, expresso, em síntese, pelo idealismo alemão, já não podem ser a forma ideal de expressão. As Grandes Guerras e as consecutivas crises financeiras e económicas, a par da degradação das condições sociais e do desprezo instalado face à cultura, anularam a possibilidade de ver o todo. A vida, tal como a conhecemos, é um mar de estilhaços dispersos, um espelho partido que impede o olhar. Logo, nesta realidade despedaçada, o que o resta é a sugestão e a projecção de um sentido. Este resto que permanece humano pode ser expresso, traduzido em texto, pelo ensaio e pelo fragmento, géneros que não se fecham em si mesmos, mas que produzem uma teia de afinidades que revela uma imagem do todo.

Segundo João Barrento, "o ensaio faz-se a bordo dos dias. E a bordo dos livros, na leitura acidental, mais do que a dirigida" (17). O ensaio não suspende a vida, alimenta-se dela e transforma-a em texto. "A vida do ensaio nasce de um névoa que se aclara" (21). Essa neblina que é a génese do ensaio tem a sua origem na própria vida, nas leituras que esboçam e delineiam novas leituras. O ensaio manifesta o fio de vida que une todas as coisas e sugere uma visão holística, na qual o limite da palavra, do texto ofertado, conduz-nos, inevitavelmente, para uma imagem de totalidade. O silêncio, o enigma que encerra o mistério, e a revelação que não se limita ao se que lê, mas que se eleva na sugestão de uma nova viagem, são a natureza essencial do ensaio e do fragmento. 

O autor diz que "no fragmento, a linguagem não fala, mas nomeia" (70) e é essa invocação do nome, enquanto síntese daquilo a que se refere, que nos transporta para além do texto, da palavra cantada. O fragmento não gera concórdia, nem promove uma unidade harmoniosa, a sua natureza confessa a discórdia, a tensão entre os opostos, a permanência de tudo o que existe nesse conflito de contrários. A unidade, o todo, esconde-se, vela-se nessa razão divina, nesse Logos que oculta, numa tecedura, a guerra que liga os opostos. 

O que encontramos na leitura de Heraclito, de Montaigne, de Schlegel, de Novalis, de Benjamin, de Llansol  e de tantos outros é essa plena expressão do fragmento e do ensaio. Neles, o texto é uma imagem de um livro total, único, o qual se estende, de página em página, de ensaio em ensaio, de fragmento em fragmento, num livro do mundo. A totalidade é alcançada pelo aceno, pelo vislumbre, pela semente que se reproduz.

A leitura de O Género Intraquilo não se esgota, pois existe uma necessidade constante de reler, de voltar atrás, de deter uma frase ou uma citação, de pensar o que foi dito, ou, melhor dizendo, nomeado. Leia-se.  

  

João Barrento 

O Género Intranquilo - Anatomia do Ensaio e do Fragmento

Assírio & Alvim

2010