segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A Humanidade em Tempos Sombrios (Poesia)



Yáñez de La Almedina, Fernando, Santa Catarina, 1505-10.
Madrid: Museu do Prado.


A Humanidade em Tempos Sombrios

À minha filha Maria Madalena

Quando o ódio galgar o humano
Pratica a nobre arte da contenção 
Mede a palavra cultiva o pensar
Não dês lume ao fogo ignorante

Quando a ética for apenas nome
Palavra perdida num livro morto
Sê somente o melhor de ti mesma
E não deixes nunca que a sombra 
Do passado te devore o amanhã

Quando tudo for líquido superficial
Efémero como a espuma da vaidade
Firma a gravidade no que é eterno
E acredita que sozinha serás o humano

Quando a sombra se estender em ti
Ergue a candeia no obscurantismo
E diante do mal comum ou universal
Sê o colosso da nossa humanidade
Um baluarte de bondade e concórdia

Quando a ignorância semear caminho
Concede o sal à terra e sê a fertilidade
De uma sábia via deixando à história
Às páginas revisitadas a lição do futuro

Quando os tempos forem sombrios
Permite ao Sol a luz da humanidade
E se tudo estiver perdido tombado
Sobre a profundidade do seu abismo
Não te percas tu permanece sempre
Humanamente humana e acredita

RMdF 15/11/2018

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Coração Divinamente Inquieto (Poesia)

Bartolomeo, Fra, God the Father with
Sts Catherine of Siena and Mary Magdalena
, 1509.
 Lucca: Museo Nazionale di Palazzo Mansi.



Coração Divinamente Inquieto


Como podes ser um estranho
E ser um mistério também
Porque se és um estranho
Não podes ser um mistério
Todo o mistério traz consigo
A intimidade que transcende
Os limites de um pensamento
E se és estranho és o outro
Um outro que nem o amor
Que une em si a terra e o céu
Ou aquela primeva harmonia
Dos opostos dos contrários
Pode na sua solidão enlaçar
É o tempo esse tempo meu
Que é memória e afinidade
Que me conta sussurrando
Que não podes ser estranho
Porque vives firme em mim
Como o fogo da minha alma
O sopro eterno do meu espírito
Mas sendo esse tempo vivente
És também um eterno mistério


RMdF 30/10/2018

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Humano Atlas (Poesia)

Warburg, Aby, The Mnemosyne Atlas, 1929, Painel B.


Humano Atlas


Cartografado o velho mapa
Da imagem e da memória
Repousa no nosso ocaso
Da Mnemósine imensa
O registo desse guardador
Textuante de eleita palavra
E pigmentada representação


RMdF 12/10/2018

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Ekpyrosis da Alma (Poesia)

Cossiers, Jan, Prometheus Carrying Fire, 1637.
Madrid: Museo del Prado.


Ekpyrosis da Alma


Se brilha a alma
Não sejas lume
Brando e manso

Sê o incêndio 
Que conflagra
Terra e gente
De ignorância 
Contaminada 

Sê o fogo cósmico
Que cria e consome
Que nasce e renasce

Sê o abismo 
E a montanha 
A paz e a guerra

Sê água e fogo
Dilúvio imenso
Incêndio universal 



RMdF 04/09/2018

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Sabedoria não tem Idade (Poesia)

Watteau, Jean-Antoine, A Dança, 1716-18.
Berlim: Staatliche Museen.

A Sabedoria não tem Idade

Vetusta criança 
Que antes de ser
Já de si o era
Que nos lábios
Colheu o passado
A secura do Letes

Doce pueril anciã 
Que do fio tecido
A memória guardou
E sem aquela sombra 
Da morte escura
Ou da vida olvidada
Todo o tempo velou

Venerável petiz
Por não ter anos
Mas sim idades
De ceifar a hora
Eleita e certa
Tornou-se a alma
Prudente e sábia
Negada e simples

Prístina menina
Que ao dançar
Muito recordas
De outras eras
Outras danças
Quando foste
Menina mãe
Viúva Trindade
Como o tempo

RMdF 03/09/2018

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O Fado do Velho Príamo (Poesia)

Ivanov, Alexander, Príamo a pedir a devolução do Corpo de Heitor, 1824.
Moscovo: Galeria Tretyakov.

O Fado do Velho Príamo

Despojado de si
Crente em Apolo
Indiferente e ledo
Segue suplicante
De Tróia o rei Príamo

Roga ao meio deus
O corpo do filho morto
Ao belicoso carrasco
Implora o recto juízo 
Clama só a justa morte

Na noite da negra Nyx
Espera sem sorte ou arte
Uma prudente luz
Da luminar razão 
E sem nada almejar
Além da morte certa
Suplica a benevolência
De um cruel algoz

Áquiles surpreso decide
Sem puder recusar
Dar o corpo morto
Aos lúgubres lumes
Nem sempre a espada
Move a ilustre coragem
E pode a superna alma
Ter força de falange

Príamo o suplicante
Fez de glória vã
A vitória de Aquiles
E deu ao morto Heitor
A sombra da dignidade

E na noite avançou
Como vazio vulto 
Para a morte próxima
Pras perdidas ruínas 
Da sua nobre cidade

Assim seguiu despojado
De Tróia o rei Príamo

Assim pela morte vai
E à morte regressa

18/08/2018 RMdF