sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Unidade Dispersa (Poesia)

Juanes, Juan, Última Ceia, 1475-1545.
Valência: Igreja de São Nicolau de Bari e São Pedro Mártir.

Unidade Dispersa


Como podes ser uno
Se líquido te vertes
Em todas as coisas 

Como podes ser uno
Se longe procuras
O que habita em ti

Como podes ser uno
Se ávido te espalhas 
Na teia da vaidade

Como podes ser uno
Se preferes a poeira
Dos dias à eternidade

Como podes ser uno
Se múltiplo te repartes
E sozinho permaneces

Porque por seres uno
És também a dispersa
Unidade das coisas



20/01/2019

RMdF

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Os Doze Signos do Zodíaco (Poesia)

Miniaturista Francês in Livre des Proprietes des Choses
 de Barthelemy l'Anglais (MS Fr. 9140), c. 1480.
Paris: Bibliothèque Nationale.

Os Doze Signos do Zodíaco



De guirlanda a orbe de estrelas
A regra constante de eclípticas
Constelações e em dúzia certa
As fixámos desenhadas no alto
Céu as linhas que uma luz une
Concedendo a palavra e o mito
À longínqua matéria, à visível
Órbita E assim num só círculo
Se tornam a conhecida ordem
Não de ciência mas de sentido


11/01/2019
RMdF


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Iniciação (Poesia)

Aachen, Hans von, Alegoria, 1598. Munique: Alte Pinakothek.
 Iniciação

Sê a escada esfumada
Perdida entre as estrelas
A via oculta do peregrino

Sê o raio trovante da fé
Que do crente é símbolo
Concordante via ou sinal

Sê a douta anciã serpente
Da sabedoria viril amante
E do tempo eterno círculo

Vivei pois como agrilhoado
Manso servil espectador

Ou tornai-vos a iniciação
A escada o raio a serpente

02/01/2019
RMdF

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Monstro e o Caminhante (Poesia)


O Monstro e o Caminhante

Canova, Antonio, Teseu e o Minotauro, 1781-83.
Londres: Victoria and Albert Museum.

Fere o monstro
Leal caminhante
Que sua sombra
Rude te conquista
Sem o alto espírito
Não te deixes cair
Nas afiadas garras
Dos teus temores
Nem no abismo
Dos teus demónios

Fere o monstro
Leal caminhante
Conhece a sombra
Que em ti avança
Sem a nobre alma
Não te deixes cair
Nas firmes teias
De erro e ilusão
De tentacular
Ignorância

Fere o monstro
Leal caminhante
Abraça a sombra
Que é modo de ver
Reflexo de ti mesmo
Sem o santo corpo
Não te deixes cair
Na febre da vaidade
Na trama do desejo
Da ilusão de possuir

Fere o monstro
Leal caminhante
Desfere o golpe
Lança o gume
Que o caminho
Já era teu
E o monstro
És tu

RMdF 01/12/2018

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A Humanidade em Tempos Sombrios (Poesia)



Yáñez de La Almedina, Fernando, Santa Catarina, 1505-10.
Madrid: Museu do Prado.


A Humanidade em Tempos Sombrios

À minha filha Maria Madalena

Quando o ódio galgar o humano
Pratica a nobre arte da contenção 
Mede a palavra cultiva o pensar
Não dês lume ao fogo ignorante

Quando a ética for apenas nome
Palavra perdida num livro morto
Sê somente o melhor de ti mesma
E não deixes nunca que a sombra 
Do passado te devore o amanhã

Quando tudo for líquido superficial
Efémero como a espuma da vaidade
Firma a gravidade no que é eterno
E acredita que sozinha serás o humano

Quando a sombra se estender em ti
Ergue a candeia no obscurantismo
E diante do mal comum ou universal
Sê o colosso da nossa humanidade
Um baluarte de bondade e concórdia

Quando a ignorância semear caminho
Concede o sal à terra e sê a fertilidade
De uma sábia via deixando à história
Às páginas revisitadas a lição do futuro

Quando os tempos forem sombrios
Permite ao Sol a luz da humanidade
E se tudo estiver perdido tombado
Sobre a profundidade do seu abismo
Não te percas tu permanece sempre
Humanamente humana e acredita

RMdF 15/11/2018

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Coração Divinamente Inquieto (Poesia)

Bartolomeo, Fra, God the Father with
Sts Catherine of Siena and Mary Magdalena
, 1509.
 Lucca: Museo Nazionale di Palazzo Mansi.



Coração Divinamente Inquieto


Como podes ser um estranho
E ser um mistério também
Porque se és um estranho
Não podes ser um mistério
Todo o mistério traz consigo
A intimidade que transcende
Os limites de um pensamento
E se és estranho és o outro
Um outro que nem o amor
Que une em si a terra e o céu
Ou aquela primeva harmonia
Dos opostos dos contrários
Pode na sua solidão enlaçar
É o tempo esse tempo meu
Que é memória e afinidade
Que me conta sussurrando
Que não podes ser estranho
Porque vives firme em mim
Como o fogo da minha alma
O sopro eterno do meu espírito
Mas sendo esse tempo vivente
És também um eterno mistério


RMdF 30/10/2018