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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Portugal: A Necessidade de um Líder na forma de Arauto

A facto de Portugal ter vivido, durante longas décadas, mergulhado numa ditadura fez com que muitos dos portugueses não sejam capazes de ultrapassar o complexo do salvador da pátria, do arauto idealizado. Vemos, por toda a parte, esse fascínio que é próprio de um regime totalitário. Elegem-se, de uma forma quase aleatória, todos os tipos de arautos. Temos figuras dos media elevadas a um patamar sobre-humano. Temos as opiniões dos comentadores políticos e económicos que se constituem como dogmas orientadores de uma forma não-crítica de consciência. Temos políticos que, em certos momentos da história actual, se afirmam como timoneiros dos destinos deste país. E a maioria dos portugueses o que fazem? Deixam-se levar por esta forma de apatia. É melhor ter outros a decidir por nós. São estes os resquícios de um vento bafiento que nos arrasta para trás. Portugal ainda tem um longo caminho pela frente para conseguir consolidar a democracia. Uma consciência crítica é a única coisa que nos pode salvar nestes tempos sombrios.   

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Para onde vamos? Democracia a Quanto Obrigas!

O Le Nouvel Observateur publicou uma sondagem para as próximas eleições europeias francesas. Nessa sondagem, o partido de Marine Le Pen, Frente Nacional, venceria as eleições com 24% dos votos. Depois do caso grego, onde os neo-nazis da Aurora Dourada ganham uma expressão preocupante e movimentam-se com uma acção que não pode ser tolerada numa Europa democrática, temos agora o avanço da extrema-direita francesa. A França, um país que foi ocupado pela Alemanha Nazi, vê-se a braços com uma proliferação de ideias intolerantes, xenófobas e anti-democráticas.
 
Nós, no nosso pequeno país, assistimos a propaganda peculiar, com uma ideologia que de democrática tem muito pouco, contra o Tribunal Constitucional. Segundo essas teses demagógicas que se alastram até ao seio da União Europeia, o TC é um tribunal activista, incapaz de auxiliar o Governo na sua nobre cruzada. A grande questão é sabermos para onde vamos. Estará a memória colectiva estilhaçada por alguma doença degenerativa, onde as recordações, ainda frescas, das ditaduras europeias se esfumam nos palácios da memória? Estará a existência humana escrita num tempo de eterno retorno, cíclico, em que os erros do passado não servem de lição, mas estão inscritos numa sistema de repetição? Será que queremos voltar aquilo que ainda ontem temíamos? Estará Abril tão longe da memória?

Não nos podemos iludir, pois se não tivermos o devido cuidado, caminhámos para o enfraquecimento e quiçá anulação de todos esforços democráticos.      

terça-feira, 16 de julho de 2013

Entre a Citação e o Fragmento (5)

CITAÇÃO

O dinheiro não só não tem coração, como não tem honra nem memória. O dinheiro é automàticamente respeitável desde que se conserve algum tempo.

Steinbeck, John, O Inverno do Nosso Descontentamento, p. 70. Tradução João Belchior Viegas. Lisboa: Livros do Brasil, 5ª Edição, 2002.

FRAGMENTO

O século XX foi determinante para a criação e preservação dos regimes democráticos. A sociedade, aparentemente, evoluiu. O desenvolvimento tecnológico, o aumento da esperança de vida e as melhorias nas condições de vida - saúde, higiene, alimentação, educação e trabalho - criaram à esperança vã que a pobreza ia diminuir, tornar-se residual. No entanto, a realidade é outra, o que é prova de que o dinheiro não tem coração, honra ou memória. Os Estados firmaram a Democracia, mas tornaram-se reféns do dinheiro. As entidades virtuais - mercados e agências de rating - minaram a autoridade que, supostamente, pertencia aos cidadãos e, com essa privação de autonomia, a pobreza cresceu. O caso português ilustra esse embuste. Veja-se o caso BPN. Em nome da sustentabilidade financeira e bancária, os contribuintes caíram num poço sem fundo. O Governo decidiu vender o banco nacionalizado a preço de saldo, 40 milhões de euros, e agora ainda tem de participar nas perdas, prejuízos, dessa aquisição pelo BIC, mais de 100 milhões. De facto, o dinheiro não tem coração, pois é oferecido em esquemas que em nada salvam aqueles cidadãos que se viram afundados na pobreza. Os direitos humanos que pareciam um pilar da sociedade moderna estão ameaçados por este tipo de acções. O valor do humano é destruído em nome de algo que não se vê e que não tem qualquer relação com a vida das pessoas. O respeito pelo dinheiro só existe para quem o tem e para quem o pode preservar. Os outros, a maioria, vivem assombrados por esse rosto nefasto que é a pobreza.     

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Entre a Citação e o Fragmento (2)

CITAÇÃO

"Não é de pouca importância para um príncipe a escolha dos ministros, os quais são bons, ou não, segundo a prudência do príncipe. E a primeira conjectura que se faz do cérebro de um senhor é ver os homens que ele tem em redor: quando são competentes e fiéis, pode-se sempre reputá-lo de sábio, porque soube reconhecê-los competentes e sabe mantê-los fiéis; mas, quando não sejam assim, pode sempre fazer-se dele um juízo negativo, porque o primeiro erro que faz, fá-lo nesta escolha."

Maquiavel, O Príncipe, XXI, 1. Tradução de Diogo Pires Aurélio. Lisboa: Círculo de Leitores / Temas e Debates, 2008.

FRAGMENTO

O que Maquiavel diz neste texto corresponde a um axioma da sabedoria popular. Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. As escolhas nas nossas relações pessoais e sociais definem a nossa identidade. A convivência com pessoas alimentadas por uma moral duvidosa pode minar toda uma estrutura ética - caso ela exista, senão será apenas um caso de união pela semelhança. No caso particular de um príncipe, essa capacidade torna-se de suma importância, pois pode definir e condicionar o sucesso ou o insucesso de um governo. Se um senhor se rodear de ministros incompetentes, desleais, corruptos, medíocres ou ignorantes, então, por muito boas que sejam as suas intenções, todos os seus esforços para uma autoridade justa, adequada e legítima serão frustrados. É impossível permanecer no poder de uma forma estável quando na gestão dos assuntos de um reino, de um povo, estão pessoas que corrompem, destroem a partir do interior, os melhores propósitos, mesmo quando não passam de propaganda. A escolha deve ser sempre alvo de uma dúvida constante e metódica. A pergunta "será que fiz a escolha acertada quando escolhi esta pessoa?" deve permanecer viva no coração daquele que governa - e também daquele que elege. Duvidar de uma escolha e corrigir na acção o erro celebrado é uma forma sábia de permanecer no poder. Ser obstinado e fiel, de forma quase fanática, às suas escolhas pode se tornar num caso evidente de ignorância activa. Certos textos permanecem no tempo, dinâmicos, disponíveis para se relacionarem com a actualidade. O excerto aqui apresentado de O Príncipe de Maquiavel pode oferecer-nos uma nova luz na interpretação do limbo político que se assiste em Portugal. A relação entre escolha e dúvida é um bom parâmetro para medir o governo, ou o desgoverno, a que estamos sujeitos.

terça-feira, 2 de julho de 2013

O Estado da Nação

A relação entre o indivíduo e a cadeira: há quem caia da cadeira; há quem saia da cadeira; e, por fim, há quem se agarre à cadeira e caia com ela. Que Deus nos livre desta terceira espécie, pois leva tudo atrás! 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Entre a Citação e o Fragmento (1)

CITAÇÃO

"O Socialismo ou é ética social em acto ou não é nada- Estou certo de pouca coisa, mas não duvido de que o futuro para o Socialismo ou se alimenta dessa convicção - e das consequências práticas que dela relevam - ou se converterá numa legenda sem leitura e sem leitores."

Eduardo Lourenço, "Socialismo: que futuro?" (1979), A Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História? - Ensaios Políticos. Lisboa: Gradiva, 2009.

FRAGMENTO

A "ética social em acto" é o grande desafio da Esquerda em Portugal. Os quatro partidos políticos da esquerda parlamentar (PS, PCP, PEV, BE) têm duas hipóteses: ou permanecem cada um no seu mundo, afastando-se progressivamente da realidade do país; ou esquecem a minúcias ideológicas que os separam, que são mais históricas do que reais, e centram-se nessa imperativo que é a "ética social em acto". O bolor da suposta solidariedade da Direita já revelou que não passa de uma propaganda, de palavras vazias, distantes da humanidade. Assim, a esperança de um povo reside na necessidade de uma ética social, de uma prática que se reflicta na vida das pessoas. Antes do capital, da dívida e da austeridade está o humano. E um verdadeiro socialismo, adequado ao século XXI, é a única forma de preservar a dignidade humana.