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sábado, 12 de outubro de 2013

Da Cultura à Ignorância

A cultura tornou-se uma arma de propaganda, pessoal e colectiva. Deixou de ser importante cultivá-la, possuí-la, o que importante é parecer ter uma imagem culta, mostrar interesse, preocupação. Os governos reservam à cultura uma parte miserável do seu orçamento, mas dizem sempre que lamentam não poder fazer mais. Não é possível. As contas públicas. A dívida. Outras necessidades. Existe sempre um razão. E, assim, perdemos o progresso, somos impedidos de evoluir. Ficamos com uma educação sem cultura, com uma classe política inculta e com uma sociedade alienada face ao valor da sabedoria. 

Os únicos que podiam contrariar essa tendência estão no limiar de um processo deliberado de extinção. A elite cultural, os criadores, os artistas, os pensadores são forçados a atravessar o percurso que leva ao exílio, simplesmente, porque são incómodos. O seu ethos contraria um modo de viver em que tudo está pré-estabelecido. Não convém que existam pessoas que coloquem em causa as convenções, as normas, as aparências e os vícios. Não seria conveniente que estas pessoas desmascarassem a ignorância dos falsos arautos. Essas vozes simoníacas que rompem o juízo de um povo desinteressado. 

Vivemos, actualmente, num novo regime totalitário, um à escala mundial, e, neste regime, o grande ditador é a Ignorância.     

Saber de Cor

Estamos progressivamente a perder a noção de saber de cor. Deduzimos que este conceito assentava apenas num esforço mnemónico, mas ignorámos que o saber de cor indica uma sabedoria apreendida pelo coração, tal como a etimologia latina indica. Esta forma de saber adquire um carácter gnoseológico, no sentido da verdadeira gnose, ou seja, um conhecimento elevado e intimista, uma sabedoria superior alcançada por intermédio do intelecto, da inteligência ou da intuição. É um processo noético, uma viagem, um itinerário entre a alma e a sabedoria. 

O ser humano perdeu esta capacidade de saber com o coração, de sentir, em todo o seu ser, a sabedoria. Na sociedade contemporânea, a sabedoria deu lugar à técnica e esta não se adquire mediante um saber de cor, mas sim através de uma lógica funcional e utilitária. A Sabedoria e o saber de cor precisam de renascer. O humano carece de valores que o elevem e que o afastem do abismo da mediocridade e da ignorância.     

sábado, 5 de outubro de 2013

Da Ignorância - II

De facto, como se concluiu anteriormente, a Ignorância é o pior dos males, quer seja pela imposição de uma estado - ignorância passiva -, quer seja por uma vontade deliberada - ignorância activa. A rejeição de uma demanda da sabedoria e de um fomento das condições necessárias para o conhecimento representam sempre um verdadeiro "mal-estar da civilização".

Podemos dizer, num estilo metafórico, que da Ignorância nasceram dois filhos, dois gémeos inseparáveis, a Ilusão e o Engano. Da Ilusão, podemos distinguir também dois tipos: a que provém do exterior e a que nasce no interior. A primeira conduz a um estado de alienação, de indiferenciação com o mundo que nos rodeia. Esta revela-se como uma manipulação, consciente ou inconsciente, da realidade. A segunda gera um estado auto-induzido de esquizofrenia antropológica. O humano perde a consciência de si e rompe o laço da sua verdadeira natureza. Em síntese, o ser anula-se a si mesmo. 

O Engano devemos, em primeira análise, distingui-lo do pecado, uma vez que o seu sentido tem uma maior afinidade com a noção grega de amartía que, na etimologia arcaica, indica o acto de falhar o alvo. A flecha erra o seu destino, a sua finalidade. Porém, o Engano não anula a possibilidade, a redenção. Devemos, portante, inseri-lo numa perspectiva didáctica, a qual só se torna possível se estiver vinculada à Vontade, Vontade esta que está orientada no caminho da Sabedoria. Só assim o Engano poder-se-á libertar das teias da Ignorância e da Ilusão.

A Ignorância, a Ilusão e o Engano representam a trindade do mal que é a oposição e o contraste da verdadeira Trindade. As três manifestações do Uno, do Indeterminado são a Vontade, a Sabedoria e o Amor.   


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Da Ignorância

A Ignorância é o pior dos males, espalha-se como uma doença e persiste como uma epidemia. No entanto, temos de distinguir entre a ignorância passiva e a ignorância activa. 

A primeira existe porque a um determinado ser humano não foram dadas as condições essenciais para o seu desenvolvimento, para o crescimento da sua esfera de conhecimentos, quer seja por condicionamentos pessoais, ou por vicissitudes externas. A segunda resulta de uma vontade consciente e deliberada de permanecer na ignorância. Esta, infelizmente, é a tipologia que mais se alastra, chegando até a fazer propaganda do seu estágio habilmente cultivado.  

O primeiro tipo de ignorância resolve-se, ou minimiza-se, com uma acesso universal à cultura e ao conhecimento, o que só é possível com uma melhoria das condições económico-sociais. Engana-se quem pensa que é no seio da pobreza que um cidadão pode alcançar todo o seu potencial. Numa sociedade subdesenvolvida, com grandes carências democráticas, a ignorância e o seu fomento são imperativos. 

Já o segundo tipo é muito difícil de extrair de uma sociedade, pois este está entranhado nas vísceras da civilização. Nesta patologia, sim porque é disso que se trata, existe um problema da vontade, uma doença do espírito e uma atrofia do ser. Esta enfermidade humana apela para mediocridade e assenta numa total e radical anulação da potencialidade humana. A ignorância activa faz-nos repensar o humano e duvidar da nossa real natureza. 

Porém, sem a sabedoria como fim, nem animais conseguimos ser.  

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Entre o Mito e a Metáfora

A metáfora é a realidade em si, é a imagem sugestiva do real, a sua dimensão mítica. O mythos é assim a essência da metáfora, pois a sua expressão é pararacional e metaconsciente. A natureza da realidade, enquanto mito, tem sido menosprezada, uma vez que se atribui ao mito um carácter de fabulação, porém, é este que confere à realidade o estado de enigma, de dinâmica velada sujeita a uma revelação. Desta forma, no que diz respeito à compreensão da realidade humana, cósmica e divina, o mito e a metáfora são duas faces da mesma moeda - o que um ilustra a outra expressa, o que um sugere a outra diz. Se um é sabedoria, então a outra é linguagem.
A verdade, acerca da realidade, não pode ser compreendida através de meios racionais e lógicos, muito menos científicos, a arte é o único caminho.