segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Ekpyrosis da Alma (Poesia)

Cossiers, Jan, Prometheus Carrying Fire, 1637.
Madrid: Museo del Prado.


Ekpyrosis da Alma


Se brilha a alma
Não sejas lume
Brando e manso

Sê o incêndio 
Que conflagra
Terra e gente
De ignorância 
Contaminada 

Sê o fogo cósmico
Que cria e consome
Que nasce e renasce

Sê o abismo 
E a montanha 
A paz e a guerra

Sê água e fogo
Dilúvio imenso
Incêndio universal 



RMdF 04/09/2018

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Sabedoria não tem Idade (Poesia)

Watteau, Jean-Antoine, A Dança, 1716-18.
Berlim: Staatliche Museen.

A Sabedoria não tem Idade

Vetusta criança 
Que antes de ser
Já de si o era
Que nos lábios
Colheu o passado
A secura do Letes

Doce pueril anciã 
Que do fio tecido
A memória guardou
E sem aquela sombra 
Da morte escura
Ou da vida olvidada
Todo o tempo velou

Venerável petiz
Por não ter anos
Mas sim idades
De ceifar a hora
Eleita e certa
Tornou-se a alma
Prudente e sábia
Negada e simples

Prístina menina
Que ao dançar
Muito recordas
De outras eras
Outras danças
Quando foste
Menina mãe
Viúva Trindade
Como o tempo

RMdF 03/09/2018

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O Fado do Velho Príamo (Poesia)

Ivanov, Alexander, Príamo a pedir a devolução do Corpo de Heitor, 1824.
Moscovo: Galeria Tretyakov.

O Fado do Velho Príamo

Despojado de si
Crente em Apolo
Indiferente e ledo
Segue suplicante
De Tróia o rei Príamo

Roga ao meio deus
O corpo do filho morto
Ao belicoso carrasco
Implora o recto juízo 
Clama só a justa morte

Na noite da negra Nyx
Espera sem sorte ou arte
Uma prudente luz
Da luminar razão 
E sem nada almejar
Além da morte certa
Suplica a benevolência
De um cruel algoz

Áquiles surpreso decide
Sem puder recusar
Dar o corpo morto
Aos lúgubres lumes
Nem sempre a espada
Move a ilustre coragem
E pode a superna alma
Ter força de falange

Príamo o suplicante
Fez de glória vã
A vitória de Aquiles
E deu ao morto Heitor
A sombra da dignidade

E na noite avançou
Como vazio vulto 
Para a morte próxima
Pras perdidas ruínas 
Da sua nobre cidade

Assim seguiu despojado
De Tróia o rei Príamo

Assim pela morte vai
E à morte regressa

18/08/2018 RMdF

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Sugestão de Leitura: Catherine Nixey - A Chegada das Trevas: Como os Cristãos Destruíram o Mundo Clássico


Catherine Nixey,  A Chegada das Trevas: Como os Cristãos Destruíram o Mundo Clássico.
Porto Salvo: Desassossego (Edições Saída de Emergência), 2018.
ISBN: 9789898892119
Páginas: 336
Preço: 18,80€

terça-feira, 10 de julho de 2018

Desenhar o Corpo Humano (Poesia)

Da Vinci, Leonardo, Estudo das Mãos, c. 1474.
 Windsor: Royal Library.

          Desenhar o Corpo Humano

          Não nem lápis ou carvão
          Nem pincel ou pigmento
          Nem martelo ou cinzel
          Virgem a tela despida
          Frio o mármore casto
          E apenas com o aparo
          E aquele fluído índigo
          Se cria a forma informe
          Sugerida por símbolos
          E conformados sinais
          Com traços de alfabeto
          E sombras de metáfora
          Seguindo sós e textuantes
          Esses sulcos de tinta
          Na folha alba plantados
          Sem rosto ou corpo
          Da mão poética gerado
          O desenho do corpo humano

               08/07/2018 RMdF

quinta-feira, 5 de julho de 2018

terça-feira, 19 de junho de 2018

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Um Fragmento de Óstraca (Poesia)

Óstracon Demótico
(O. Chicago M. H. 3377)


Um Fragmento de Óstraca

Num estilhaço se gravam
As estrelas e o destino
Num acidente de oleiro
Se cinge um futuro
Escrito no barro quebrado
Não se perde o papiro
Na sorte do comum
E abreviando se guarda
Uma vida inteira

19/05/2018 RMdF


Fonte da Imagem: Neugebauer, O., Demotic Horoscopes in Jounal of the American Oriental Society, Vol. 63, Nº 2, 1943, pp. 115-127

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Sugestão de Leitura: Rimbaud - Obra Completa


Rimbaud, Jean-Arthur, Obra Completa, Edição Bilingue.
Tradução: João Moita e Miguel Serras Pereira.
Lisboa: Relógio D'Água, 2018.
ISBN: 9789896418427
Páginas: 874
Preço: 34 €

terça-feira, 15 de maio de 2018

As Asas do Anjo da História (Poesia)

Klee, Paul, Angelus Novos, 1920.


As Asas do Anjo da História 

E como um tornado de luz
Ou redemoinho de sombra
Tanto o humano seduz
Como o povo assombra
Sem seu trilho ou paisagem
A história é cinza ou poeira
Ora vestígio ora miragem
Pra quem vence soalheira
Dos vencidos sombra extensa
Dos escribas mais que alegoria
Outros julga e de si não pensa
Mas de ninguém os pecados expia

E como memória ou vendaval
Assim segue o anjo a sua via
Como vivente não se torna actual
E no seu coro ou seguia ou caia
Sem sua vontade o vento avança
Ora com força ora com graça 
Das asas vem toda a esperança 
E do humano se afasta a barcaça 
Sobre os estilhaços não há morte
Com o progresso tudo é passagem
É a fé de quem nos dados tira a sorte
Dos outros não deixa de ser viagem

Assim vai o anjo da história 
Assim chega o vendaval
Para o humano sombra ou glória
Da humanidade um outro mal

13/05/2018  RMdF