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quinta-feira, 14 de março de 2013

Acerca "Das Ruas": A Representação entre a Verdade e a Política

As manifestações populares dos últimos anos, sobretudo a de Setembro do ano passado e a de Março deste ano, lançaram um conceito para a agenda e para a análise política: "as ruas". A utilização deste termo foi utilizada em diversos comentários, os quais, na maior parte dos casos, expressaram uma dicotomia entre "as ruas", por um lado, e a classe política, por outro. Ora esta distinção parece criar um hiato entre a população eleitora e os políticos eleitos, quase como se falasse de duas realidades distintas. "A rua" pressupõe um exterior, algo que está fora, em oposição ao que está dentro, ao que pertence ao interior da coisa política. No entanto, esta distinção revela um profundo desprezo, ou ignorância, pelos valores democráticos, pela própria noção de democracia. Se este regime político assenta no poder do povo, dos cidadãos, então não se compreende como é que aqueles a quem pertence o poder podem ser votados ao exterior, a algo que está distanciado dos púlpitos do poder democrático. Parece estranho que num país que lutou contra a ditadura, vencendo-a, tenha agora políticos que dizem que não se deixam influenciar pelas ruas, que continuam a acção traçada independentemente da contestação dos eleitores.  

A questão em volta do conceito "as ruas" põe em causa o princípio da representação e contrária os primeiros dois artigos da Constituição (Artigo 1º "Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária" e Artigo 2º "A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa"). A pergunta que se coloca é como pode uma democracia representativa e participativa ser viável, quando se promove esta distinção entre "as ruas" e os actores políticos. Devemos até ser levados a pensar e questionar o próprio valor da representação. Quando alguém é eleito para um cargo político quem é que esta representar? O partido político a que pertence? Os amigos que o promoveram no interior do partido? Aqueles que patrocinaram a sua campanha? Os lobbies que o sustentam? Ou aqueles que o elegeram? Ou, em última análise, toda a população portuguesa? Segundo a Constituição, é tarefa do Estado "Defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais" (Artigo 9º, alínea c). Logo, é de todo impensável que se limite a acção participativa dos cidadão, pois se tal acontecer todo o sistema é posto em causa e então os cidadãos têm um direito que a própria Constituição prevê, o da resistência, diz o texto que "Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública" (Artigo 21º). "As ruas" têm o direito e o dever de assegurarem o seu bem-estar (direitos, liberdades e garantias) e de promoverem uma qualquer forma de resistência que defenda um compromisso com a verdade.

O livro de Hannah Arendt, Verdade e Política, oferece-nos uma enorme luz nesta matéria e, embora tenha sido escrito com um propósito específico, o seu texto concede-nos uma análise muito lúcida. A filósofa diz que "as mentiras foram sempre consideradas como instrumentos necessários e legítimos, não apenas na profissão do político e demagogo, mas também na de homem de estado" (9). Pensemos. A resistência não se afirma, com frequência, quando os cidadãos se sentem defraudados, enganados, privados da verdade? Não existe, por vezes, um espaço imenso entre a promessa, o que se diz que se vai fazer, ou que se fez, e acção que depois se executa? Hannah Arendt continua e diz que "a opinião e não a verdade, é uma das bases indispensáveis de todo o poder" (17). Não sentimos, com frequência, que nos dizem algo como sendo a verdade, a necessidade inabalável, e depois concluímos que aquilo que é expresso como certo não passa de um opinião, de uma visão de mundo, de uma ideologia? E não é a representação pura uma forma de contrariar esta subjectividade opinativa? Porque, como diz Arendt, "o pensamento político é representativo. Eu formo uma opinião considerando uma questão dada sob diferentes pontos de vista, e tendo presente ao espírito as posições daqueles que estão ausentes; quer dizer represento-os" (28-9). O político eleito deve ter essa capacidade de tornar presentes aqueles que estão ausentes, ou seja, é mandatado para representar a totalidade dos eleitores, não se elege a si mesmo, mas é a voz daqueles que nele depositaram a sua palavra. A autora dá o seguinte conselho: "o verdadeiro processo de formação de opinião é determinada por aqueles em lugar dos quais alguém pensa e o usa o próprio espírito, e a única condição para esse emprego da imaginação é a de ser desinteressado, estar liberto dos seus interesses privados" (29). Esse desinteresse, essa liberdade face a qualquer constrangimento, seja pessoal, partidário ou financeiro, é o que pode formar um verdadeiro representante do povo e conferir-lhe uma independência na sua faculdade do julgar, já que a "qualidade de uma opinião, tanto como a de um julgamento, depende do seu grau de imparcialidade" (30). Então, como pode alguém ser imparcial se está dependente de uma agenda, de rumo inalterável?

Hannah Arendt alerta, neste pequeno livro, para o risco da mentira politica e diz que "a possibilidade da mentira completa e definitiva, ainda desconhecida nas épocas anteriores, é o perigo que nasce da manipulação moderna dos factos" (47), porém, refere também que "a persuasão e a violência podem destruir a verdade, mas não podem substituí-la" (53). É na sede essencial do poder democrático, "nas ruas", que se deve alicerçar a resistência de defender a verdade e de com lucidez contrariar a manipulação imposta. Verdade e Política é um livro que se deve ler. Leia-se.




Hannah Arendt

Verdade e Política

Tradução Manuel Alberto

Relógio D'Água

1995
          

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Da Revolta

Aristóteles, na Política, diz que "democracia teve origem devido àqueles que sentiam iguais num determinado aspecto, se convencerem que eram absolutamente iguais em qualquer circunstância; deste modo, todos os que são livres de um modo semelhante, pretendem que todos sejam, pura e simplesmente, iguais" (1301 a 24-27). Não temos qualquer dúvida que essa inspiração de liberdade, que une as pessoas na procura da igualdade plena, é o espírito de uma democracia. Desta forma, se este espírito livre de demanda da igualdade for posto em causa, ameaçado, então cresce nos indivíduos prejudicados por uma injustiça social, a qual não respeita essa proposta democrática de igualdade, um sentimento de revolta. O Estagirita sintetiza essa justificação da seguinte forma: "as revoltas ocorrem sempre devido à desigualdade" (1301 b 26-7).

 Uma outra causa, apontada por Aristóteles, para um estado de espírito propenso à revolta consiste em: "as causas das origens das sublevações são o lucro e a honra, mas também os seus opostos, dado que as lutas surgem nas cidades, para escapar às desonras e aos prejuízos materiais, quer dos próprios quer dos amigos" (1302 a 31-4). Refere também que "a partir do momento em que alguém privado de honras nota que os outros as possuem em excesso, segue o caminho da revolta" ( 1302 b 11-2). A questão que se coloca, neste momento, é inquirir se não será este o espírito que move os cidadãos portugueses para uma manifestação, pois, por um lado, vêem os seus rendimentos diminuídos, a sua condição humana ameaçada, e, por outro, observam, com um certo critério de verdade, que existem outros que não são prejudicados da mesma forma. As palavras do filósofo apontam para um fiel constatação dos sentimentos que, em Portugal, existem. Estará o nosso país à beira de uma revolta? Esta probabilidade deve ser avaliada por todos, mas, em especial, por todos aqueles que tem responsabilidade política.

De seguida, Aristóteles expõe mais duas causas para a revolta: "a prepotência também é causa de sedição sempre que alguém (um ou vários) se dispõe a exercer um poder que exorbita das competências que lhe foram atribuídas pela cidade ou pela autoridade governamental" (1302 b 15-7) e "o medo também está na base dos distúrbios. Manisfesta-se não só nos que incorrem em delito (e que por isso temem castigo), como também nos que, na iminência de serem vítimas de uma injustiça, preferem tomar precauções" (1302 b 21-3). A primeira causa pode também ser evidenciada na actual situação portuguesa. Não poderão os cidadãos sentirem uma certa prepotência governamental, sobretudo quando a prática contraria algumas das propostas eleitorais. A questão que, neste ponto, se coloca é a da legitimidade. Não será a quebra de promessas uma forma de perda de legitimidade? A própria questão eleitoral também pode fazer com que questionemos a legitimidade do Governo, pois o total de inscritos como eleitores foi, nas legislativas de 2011, de 9.624.133 e o número de votantes foi de 5.558.594. Ora o Governo foi constituído pela soma dos seguintes votos: 2.159.742 (PSD) e 653.987 (CDS-PP). Ler aqui. Como pode ser facilmente observado, o Governo, em funções, foi eleito com os votos de menos de um terço dos eleitores. Não deve este facto fazer-nos pensar sobre a questão legitimidade? O medo, a reacção ao medo, gera também uma ameaça à legitimidade de Governo, ou melhor dizendo à sua autoridade, visto que a imposição de um injustiça quebra eticamente o vínculo entre os cidadãos e os seus representantes.

Os governantes deviam equilibrar o agir com o pensar e a leitura da Política de Aristóteles seria um bom complemento para a necessidade um espírito democrático. Pensar as causas da revolta é pensar também na sobrevivência da Democracia.



Aristóteles

Política

Edição Bilingue

Tradução António Campelo Amaral e Carlos de Carvalho Gomes

Vega

1998