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sexta-feira, 12 de junho de 2020

quarta-feira, 30 de março de 2016

Tu que és Sombra e Sombra vês

Caravaggio, David com a Cabeça de Golias, 1609-10. Roma: Galleria Borghese.
 

  Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém, expandiu o alcance do conceito de mal, fez com que descesse da sua dimensão extrema e contaminasse o ser humano comum. Um ser quase sem sentido como Eichmann não se revela imbuído de uma perfídia psicopatológica, mas sim de um espírito meramente executante que não pensa, nem questiona, e que, no entanto, estende o mal a uma banalidade quase universal. O prática inconsciente do mal pode parecer uma mera expressão de ignorância, porém atinge uma dimensão mais profunda, a da aceitação do mal como estado natural das coisas. O extermínio e a anulação do ser humano nos campos de concentração parecem uma forma normalizada e rectificada das coisas, tudo porque foram determinados pelo líder.  A confiança cega que o foi decidido é o melhor é o veículo adequado para a banalização do mal.

  Pensamos no mal como se descendo uma pirâmide. No topo, encontramos a génese do mal que se alastra para a parte mais larga da pirâmide, ou seja, partimos da personificação do mal, centrada numa pessoa ou aspecto, e descemos para o vulgo que se deixa corromper. Todavia, o movimento não é apenas descendente, nem centralizado. É a base da pirâmide que constrói e legitima o mal. Não existe senhor, sem súbditos.

  Os cultos de personalidade nascem de um predisposição para o mal, têm a sua génese numa incompletude massificada que verte essa falta numa corrupção do mito do herói. Na ausência de uma fé profunda, que anularia esse desejo de participar na acção de um homem comum, marcado pela Providência, constrói-se uma imagem de salvação e redenção. Todas as esperanças de um povo estão agora nas mãos de um ser banal tornado deidade. Esta é uma pura construção do mal.

  Quando o sentido da humanidade enfraquece e quando Deus desvanece na aparência dominical, aparecem deuses do momento que alentam os povos e que os elevam para uma grandeza que não é sua. Os países que viveram em ditadura revelam uma predisposição, quase natural, para os cultos de personalidade. Em Portugal, essa fraqueza de espírito é deveras evidente. A nossa pequenez aspira sempre a tornar os feitos individuais numa glória colectiva. Veja-se o exemplo de Cristiano Ronaldo. O melhor jogador do mundo é português, logo Portugal é espectacular. Agora, criou-se, sobretudo na comunicação social, a ideia de um presidente que vai salvar os portugueses da bruma da sua própria história. Um homem providencial que anula as fragilidades humanas, as vicissitudes de um povo e que o transporta, aos ombros, para uma vida melhor.

  Criámos uma constelação de deuses que não passam de homens comuns. Do alto do pedestal, estes ídolos caiem na sua própria humanidade. São os estão em baixo que operam esta construção do mal. Procura-se consolo numa imagem idílica de um ser perfeito. Será possível ver apenas um génio num Leonardo Da Vinci com resto de sopa na barba, como descreve o biógrafo? Ou ver o arauto da educação num Rousseau que abonou os cinco filhos? Ou um Marx que não pagava o salário à empregada e desprezava os trabalhadores? Um Gandhi, imagem da paz, que batia na mulher e tentava a castidade, dormindo com jovens, em especial, com a sobrinha? Shelley era um mau pagador que pedia dinheiro emprestado e nunca pagava. Tolstoi era um egocêntrico que se aproveitava sexual e emocionalmente dos outros. Leia-se Intelectuais de Paul Johnson e compreende-se a falácia do culto da personalidade. Em Portugal, encontramos também, por exemplo, um D. Pedro, imagem do amor, amante de D. Inês, que nutria afecto obsessivo pelo seu escudeiro, ou um Salazar, homem rectíssimo para muitos, com um fetiche por mulheres casadas.

  O problema de prestar culto a seres humanos é o de serem humanos, falíveis, com debilidades morais e vivências na sombra. A aura quebra-se perante a sua própria humanidade, mas, mais uma vez, o erro está nos seus fiéis e é neste aspecto que o mal avança. Só vêem a luz quando o que existe é sombra. O valor deveria repousar na obra e não no indivíduo. Hannah Arendt, numa carta a Gershom Scholem, diz que o mal não tem uma dimensão demoníaca, mas espalha-se como um fungo. O cultos de personalidade têm essa dimensão de fungo, pois espalham-se e fixam-se nos ideais, sem ideias, do comum dos mortais.

  No Purgatório, Dante coloca Estácio diante de Virgílio e quando o primeiro tenta abraçá-lo, o segundo diz: "Frate, non far, ché tu se' ombra e ombra vedi". A noção de que somos sombra e sombras vemos é o que se pode reter. A luz do Bem tende esconder-se e a pessoa boa não pode ser objecto de culto. Veja-se a obra, ver-se-á o homem. O egocentrismo de uma sociedade é uma expressão do mal. A sabedoria pede a contenção e o silêncio, e essa é imagem do Bem. 

Bibliografia:
Arendt, Hannah, Eichmann em Jerusalém. Coimbra: Tenacitas, 2003.
Dante Alighieri, A Divina Comédia. Venda Nova: Bertrand Editora, 2000.
Johnson, Paul, Intelectuais. Lisboa: Guerra e Paz, 2008.
Neiman, Susan, O Mal no Pensamento Moderno. Lisboa: Gradiva, 2005

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Paolo e Francesca: Um Fragmento


Ary Scheffer, Os Fantasmas de Paolo e Francesca aparecem a Dante e Virgílio, 1835.
Londres: Wallace Collection.


Amor, ch'al cor gentil ratto s'apprende,
prese costui de la bella persona
che mi fu tolta; e 'l modo ancor m'offende.
Amor, ch'a nullo amato amar perdona,
mi prese del costui piacer sí forte,
che, come vedi, ancor non m'abbandona.

Dante, Divina Comédia, Inferno, V, 100-105.


Fragmento: Uma é a morte para o amor que não perdoa o amar dos amantes. A memória não esquece o amor e a eternidade é o castigo de amar. A queda é de quem vê o volver dos amados. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Como um Corpo Morto assim Caí

Dante, no Canto V do Inferno, desce ao 2º Círculo, o dos Luxuriosos, aquele em que os "pecadores danados sãos carnais" (V, 38). Minos rege este lugar de dor certeira e o temor que provoca é tal que as almas em desventura logo confessam os pecados cometidos. Os amantes de um amor em que amar é culpa são arrastados num turbilhão infernal, juntos, sem se separarem, para toda a eternidade. 


Dante, acompanhado por Virgílio, observa todos aqueles "a quem amor tirou da vida hostil" (V, 69) e escuta, do seu sábio guia, os nomes que, às sombras, o dedo atribui. A primeira de todos aqueles que são volvidos na sua própria ruína é Semirâmis, imperatriz, esposa de Nemrod, construtor da Torre de Babel. Segundo a Comédia, a filha de uma sacerdotisa, abandonada e alimentada por pombas, torna-se numa mulher com o "vício de luxúria tão rompida, / que o líbito fez lícito por lei" (V, 55-6). Esta senhora condenada é, por vezes, comparada com a deusa de Éfeso, mas é a deusa cipriota que vela por ela. 

De seguida, vê Dido, abandonada por Eneias e que ceifou a sua própria morte. Cléopatra, Helena, Aquiles, Páris e Tristão são as sombras amantes que seguem, em tão dolorosa procissão. Porém, é com a história de Francesca da Polenta e de Paolo Malatesta que Dante mais se compadece. Francesca, casada com Gianciotto, irmão de Paolo, é apanhada em acto pleno pelo marido, que mata os amantes sem qualquer hipótese de arrependimento. Dante descreve este amor como um "amor que amado algum amar perdoa" (V, 103). Como pode o amor não amar quem é amado? Essa é a pergunta que começa a quebrar o andar de Dante. A dor de amar tira o passo do caminho. O amor de Francesca e Paolo "conduziu a uma só morte" (V, 106), unidos são arrastados na sua queda. O fratricida, no entanto, recebe, em Caína, as suas recompensas.  

Por fim, Galeotto, no livro, é timoneiro da palavra, do texto que introduz o amor de Guinevere e de Lancelot. "Éramos sós e nada a nós suspeito" (V, 129), diz o verso que ao texto reporta, e foi no beijo solicitado que "a boca me beijou todo anelante" (V, 136). Este beijo que o valor proíbe faz com que a leitura pare. 

Francesca e Paolo e Guinevere e Lancelot unem, na palavra que o amor indica, a mesma dor que o choro impele. A morte é sentida neste amor que à queda leva e Dante diz que "como um corpo morto assim caí" (V, 142).

O Canto V do Inferno de Dante é um assombro para quem lê, pois ver aqueles que amaram e amam na sua triste sorte conduz-nos, inevitavelmente, à semelhança e à compaixão. Identificamo-nos com a dor lida e desejamos que a luz do Paraíso receba este amor. 

Ler a Comédia é um desafio e uma bênção, uma descoberta que todos os dias se vivifica.        


Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução Vasco Graça Moura

Quetzal

2011

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A Arte entre a Vida e a Morte: Para uma Leitura de Broch

A Morte de Virgílio de Hermann Broch é umas das maiores obras da literatura universal. A personagem principal, o poeta latino Virgílio, autor da Eneida, não é apresentado como na Comédia de Dante, um guia, uma mestre, aquele que aponta o caminho, nesta obra, olhamos, pela força lírica das palavras, para um Virgílio moribundo, com a morte invadindo-lhe a carne. O poeta tem o seu coração inquieto, duvida do sentido e do valor da vida, valor este que, no seu caso, foi alcançado pela arte, enquanto expressão da vida. Porém, quando a morte se aproxima, a importância da arte é posta causa, perde, aparentemente, o seu sentido, daí que Virgílio queira destruir a sua grande obra. O texto expressa esse desencanto nas palavras: "para se reconhecer a vida, não é preciso a poesia" (II,101), "o que eu escrevi tem de ser consumido pelo fogo da realidade" (II, 22). O conhecimento da vida depende do conhecimento da morte.

Maria Filomena Molder, em O Absoluto que Pertence à Terra, livro dedicado a Broch, diz que "o conhecimento da morte revela-se na transformação do tempo em espaço" (73). Ora é precisamente nesta transformação do tempo em espaço que podemos encontrar, através do conhecimento da morte, esse absoluto que pertence à terra. A relação de conhecimento - ou de reconhecimento - entre a vida e a morte, alcançada pelo valor da vida, o qual indica também o sentido da arte, permite que alcancemos uma forma de redenção. O Anjo da Terra garante, neste processo de transformação, um gesto de dádiva, um toque que purifica.

A Morte de Virgílio representará sempre uma leitura inacabada, pois em cada página, cada frase, cada palavra podemos encontrar um olhar renovado. As grandes obras concedem-nos as bênçãos da novidade e do espanto.

Hermann Broch

A Morte de Virgílio

1º Volume

Trad. Maria Adélia Silva Melo

Relógio D´Água

S/d




Hermann Broch


A Morte de Virgílio

2º Volume

Trad. Maria Adélia Silva Melo

Relógio D´Água

S/d






Maria Filomena Molder

O Absoluto que Pertence à Terra

Edições Vendaval

2005